(Era com emoção?) – E essa noite foi difícil dormir. Logo após sairmos de Livingstone no fim da tarde de ontem, o mar começou a ficar agitado. Perto de meia noite, quando fui dormir, entramos no Drake. E o navio balançava muito! Era cada cacetada na água, que, segundo quem estava no passadiço, voava água até lá. Eu ouvia do meu camarote a “chuva” que caia em cima dele já que ele fica bem na proa do navio. Demorei muito pra dormir, até acostumar novamente com esse balanço todo e com o barulho do navio batendo na água.
Acordo e resolvo olhar o relógio, eram 9:50. Pensei “Putz, nem ouvi a alvorada hoje”. Levantei peguei a escova de dentes, passei a pasta e de repente ouço no fonoclama: - Alagamento real em Bravo. E toca a sirene de emergência.
“Não acredito!” foi a primeira coisa que pensei enquanto jogava minha cabeça pra trás. Logo em seguida vem a Beatriz me chamar para ir a Praça d’Armas, lugar onde somos instruídos a nos reunir numa emergência.
Terminei de escovar os dentes, me troquei e fui para a Praça d’Armas. Quando cheguei lá, já haviam algumas pessoas no local e com o tempo foi chegando o restante. A maioria com cara amassada e/ou de ressaca graças ao coquetel que tivemos na noite anterior em comemoração ao fim da primeira etapa da XXX Operantar. Tudo o que podíamos fazer era esperar.
Mais tarde veio o Imediato conversar com a gente para dar informações sobre o incidente. Disse que tinha um alagamento na praça de máquinas que as bombas para esgotamento da água estavam funcionando e que o nível de água estava baixando mas ainda não sabiam a origem da água. Só para saber: é normal ter água na praça de máquinas até um certo nível, existem bombas que esvaziam o local de tempos em tempos.
De tempos em tempos viam informações sobre a situação e ela só melhorava, até que ao meio dia foi dado volta aos postos de emergência. A situação estava resolvida. Agora iriam começar uma avaliação minuciosa de onde estava o problema. Rumores diziam que poderia ter sido um vazamento no tanque de aguada do navio, mas era apenas rumor. A tarde, como não tinha o que fazer fui tirar uma soneca, afinal tudo tinha voltado a normalidade e a noite de sono não tinha sido boa.
Depois de levantar assisti um pouco de seriado e por volta de 7 horas subi ao passadiço. Fez um dia bonito hoje, com sol e pouquíssimas nuvens. Então, enquanto eu estava lá por cima, o comandante do navio chegou e fez um comunicado para todo o navio, elogiando a performance da equipe pela velocidade e eficiência da ação (e foi mesmo) e que depois de uma longa avaliação não detectaram nenhum problema estrutural no navio, ou seja nada de casco quebrado ou coisas do tipo, e que a água na praça das máquinas não havia voltado. Resumindo, não se sabe o que aconteceu ao certo.
Outro fato importante do dia foi que as 19:29 (20:29 no Brasil) atravessamos o paralelo 60° sul, e deixamos oficialmente a antártica.
Não vemos mais terra nem neve, mas o friozinho de 0°C ainda está aqui como uma última lembrança desse continente incrível e belíssimo que tive a oportunidade de conhecer. Com certeza foi uma experiência única na minha vida que rendeu boas histórias e que já estou começando a sentir saudades.
Nesse momento estamos atravessando o Drake e aqui vai minha localização: 59°26’ S, 64°05’ W
Um grande abraço a todos!