(Hadouken!) – Hoje dia amanheceu lindo, com sol, sem nuvens e pouco vento. Estamos na Ilha Nelson próximo ao refúgio de Cruls. Deram toque de vôo, deixamos tudo prontinho pra descer, enviaram o pessoal do arsenal para conserto de refúgio e…só!
Não enviaram a gente pra ilha. Hoje não existiam desculpas de mau tempo. Não mandaram por que não quiseram. Tivemos o dia inteiro com condições de nos enviar pra lá tanto de helicóptero quanto de bote. E por que não enviaram?
A Franciane soltou os cachorros com todo mundo do comando, e com razão. Não estamos aqui a turismo. Não deixei minhas coisas no laboratório paradas por 30 dias pra ficar aqui de passeio. Quando o tempo está ruim, a gente sabe que está ruim e que não tem o que fazer. Vieram até com o argumento de que “o projeto de vocês não é mais importante que o de ninguém”. Só que nós somos o ÚNICO projeto embarcado que necessita ir em terra.
Falta tato, falta vontade e falta dialogo com o pesquisador embarcado. Não nos chamam para os planejamentos das operações do dia. As vezes nem o coordenador da Secirm, que faria a ponte entre nós e o comando, é chamado. Em maio é feito um planejamento geral de todos os projetos para a próxima operação. E estão querendo que ele funcione a risca aqui no fim do ano. Não dá! Esse continente não aceita planejamento a risca. Tem que fazer o que for possível no dia, chamando todos os coordenadores dos projetos e o da Secirm que estão embarcados no momento, conforme o que foi planejado em maio, e discutir as opções do dia. Sabemos que eles tem a parte logística também mas daria, sim, para encaixar o pessoal que precisa desembarcar.
Muita coisa precisa ser revista, é uma logística grande e o custo é muito alto para ser desperdiçado com hierarquia militar inflexível. Sabemos que o navio é incorporado a marinha e que sem a marinha o Proantar não seria viável, mas temos que lembrar que o navio foi comprado com dinheiro do Ministério da Ciência e Tecnologia e a missão do navio é a de apoio a pesquisa. E não estamos tendo apoio a contento. Não é navio de guerra e não estão fazendo um favor pra gente. Reformaram o refugio para um projeto que deve aparecer aqui apenas no ano que vem. E nós que estamos aqui agora? Todos os projetos não são iguais? Acho que favoreceram o outro projeto, que eu não faço idéia de qual seja, e não estou desmerecendo também. Tudo é relevante.
Inclusive o objetivo maior, e velado, do Proantar é político. É garantir um pedacinho do Brasil na antártica caso um dia isso seja “fatiado”, e graças ao tratado de Madri isso ficou congelado. Mas não significa que um dia não podem mudar isso, e quem for membro consultivo, incluindo o Brasil graças a pesquisas aqui, ganha uma fatia.
Se as pesquisas começarem a definhar, quem vai perder é justamente a parte mais interessada.