(Surreal…) - Quando você ouve uma notícia ruim de algo relacionado a nós os primeiros sentimentos são de negação.
“Isso não pode ser verdade”
E foi exatamente assim que me senti hoje quando soube do ocorrido com a estação brasileira Comandante Ferraz.
Assim que soube, fiquei louco atrás de informações. Algumas pessoas que conheci no navio Almirante Maximiano, especialmente os mergulhadores Ricardo e Eliezio e o comandante Marcello, davam algumas informações a mais do que aquelas que a mídia ainda dispunha pelo nosso grupo da Operantar XXX no Facebook. Logo começaram a pipocar outras informações e elas não eram boas.
Infelizmente duas pessoas vieram a falecer nessa tragédia e também soubemos que a estação foi completamente destruida pelas chamas.
Quando você começa a aceitar que algo realmente aconteceu os sentimentos são de perda e tristeza.
Perda por que aquele cantinho no meio do circulo polar antártico foi nossa casa por um tempo. E ninguém quer que isso aconteça com ela.
Tristeza pelas vidas que se foram e por tudo que aquele lugar representa.
Trinta anos de investimentos, pesquisas, conhecimento e duas vidas se foram em menos de um dia.
Trinta anos.
O que nos resta agora é deixar que o tempo passe, aguardar a sucessão dos trabalhos de evacuação do pessoal e controle de incendio, a perícia para apurar as causas do incendio e por que o alarme não disparou.
Muita coisa deve ser revista, mudada e replanejada no programa antartico tendo em mente o que aconteceu lá neste dia 25 de fevereiro de 2012 para que esse tipo de incidente não se repita nunca mais.
Nossa casa na antártica queimou. Vou sentir falta dela.

Da esquerda para a direita: Haroldo Palo Jr., Roberto Baracho, Eliezer Stefanello, Marcello Cruz e Beatriz Marques ao fundo Estação Antártica Comandante Ferraz (Foto tirada em 1 de novembro de 2011)
(Era com emoção?) – E essa noite foi difícil dormir. Logo após sairmos de Livingstone no fim da tarde de ontem, o mar começou a ficar agitado. Perto de meia noite, quando fui dormir, entramos no Drake. E o navio balançava muito! Era cada cacetada na água, que, segundo quem estava no passadiço, voava água até lá. Eu ouvia do meu camarote a “chuva” que caia em cima dele já que ele fica bem na proa do navio. Demorei muito pra dormir, até acostumar novamente com esse balanço todo e com o barulho do navio batendo na água.
Acordo e resolvo olhar o relógio, eram 9:50. Pensei “Putz, nem ouvi a alvorada hoje”. Levantei peguei a escova de dentes, passei a pasta e de repente ouço no fonoclama: - Alagamento real em Bravo. E toca a sirene de emergência.
“Não acredito!” foi a primeira coisa que pensei enquanto jogava minha cabeça pra trás. Logo em seguida vem a Beatriz me chamar para ir a Praça d’Armas, lugar onde somos instruídos a nos reunir numa emergência.
Terminei de escovar os dentes, me troquei e fui para a Praça d’Armas. Quando cheguei lá, já haviam algumas pessoas no local e com o tempo foi chegando o restante. A maioria com cara amassada e/ou de ressaca graças ao coquetel que tivemos na noite anterior em comemoração ao fim da primeira etapa da XXX Operantar. Tudo o que podíamos fazer era esperar.
Mais tarde veio o Imediato conversar com a gente para dar informações sobre o incidente. Disse que tinha um alagamento na praça de máquinas que as bombas para esgotamento da água estavam funcionando e que o nível de água estava baixando mas ainda não sabiam a origem da água. Só para saber: é normal ter água na praça de máquinas até um certo nível, existem bombas que esvaziam o local de tempos em tempos.
De tempos em tempos viam informações sobre a situação e ela só melhorava, até que ao meio dia foi dado volta aos postos de emergência. A situação estava resolvida. Agora iriam começar uma avaliação minuciosa de onde estava o problema. Rumores diziam que poderia ter sido um vazamento no tanque de aguada do navio, mas era apenas rumor. A tarde, como não tinha o que fazer fui tirar uma soneca, afinal tudo tinha voltado a normalidade e a noite de sono não tinha sido boa.
Depois de levantar assisti um pouco de seriado e por volta de 7 horas subi ao passadiço. Fez um dia bonito hoje, com sol e pouquíssimas nuvens. Então, enquanto eu estava lá por cima, o comandante do navio chegou e fez um comunicado para todo o navio, elogiando a performance da equipe pela velocidade e eficiência da ação (e foi mesmo) e que depois de uma longa avaliação não detectaram nenhum problema estrutural no navio, ou seja nada de casco quebrado ou coisas do tipo, e que a água na praça das máquinas não havia voltado. Resumindo, não se sabe o que aconteceu ao certo.
Outro fato importante do dia foi que as 19:29 (20:29 no Brasil) atravessamos o paralelo 60° sul, e deixamos oficialmente a antártica.
Não vemos mais terra nem neve, mas o friozinho de 0°C ainda está aqui como uma última lembrança desse continente incrível e belíssimo que tive a oportunidade de conhecer. Com certeza foi uma experiência única na minha vida que rendeu boas histórias e que já estou começando a sentir saudades.
Nesse momento estamos atravessando o Drake e aqui vai minha localização: 59°26’ S, 64°05’ W
Um grande abraço a todos!
(Finalmente!) – Hoje pela manhã tivemos postos de vôo. Aquela velha conhecida, alvorada as 5:30, todo mundo pronto e o tempo fecha. Tinha tudo para ser um dia igual aos anteriores mas, de repente, ouço ligarem os motores da aeronave.
Viva!
As 10 horas da manhã decolou o primeiro vôo. Levaram todos os bulgaros nos dois vôos seguintes e então começaram as cargas. O vento ainda estava forte, ficava variando próximo ao limite do envelope de vôo que é de 30 nós. Ele variava de 20 a 40 nós, e ficavam aguardando uma janela para a decolagem. E assim foi a manhã toda. Terminaram de levar as cargas dos búlgaros e ficou faltando apenas combustível: gasolina para abastecer motos de neve e diesel para os geradores. Esses combustíveis estão em toneis de 200 litros e normalmente são transportados do lado de fora da aeronave, mas com o envelope no limite não era possível fazê-lo. Então veio o improviso. Procuraram bombonas e o que mais fosse possível colocar combustível dentro e transportar internamente até a base.
O objetivo do comando era dar um mínimo de combustível para que os búlgaros pudessem sobreviver por 1 mês, até que o navio voltasse pra cá. O que viesse além era bônus. Duas viagens foram feitas dessa forma e o tempo foi firmando e melhorando até que conseguiram fazer vertrep (carga externa no helicóptero). E o tempo colaborou o restante do dia. Fizeram todas as mais de 20 cargas que eles previam para terminar o abastecimento e lançamento completo dos búlgaros, sem necessidade de retorno.
Assim como em Elefante, no último dia possível as coisas funcionaram. Aqui é sempre aos 47 do segundo tempo, sempre no limite.
Por volta de 8 horas toda a carga foi completada, e o navio traçou rumo a Punta Arenas. A previsão de chegada por lá é dia 17 mas o navio só poderá atracar dia 18, que é a data reservada para ele no porto. É possível que ficamos navegando nas proximidades do porto até que nossa vez chegue. Mas isso é outra história.
Abraços a todos!
(É natal?) – Como virou rotina alvorada as 5:30 da manhã, hoje não foi diferente. Todos acordam, com tempo bom para fazer o trabalho do dia, fazem o briefing, tocam postos de vôo ou carga e o tempo fecha. Todo dia tem sido assim nos últimos 4 dias e na maior parte do tempo nessa Operantar.
Hoje tivemos uma novidade em termos de pane. Problema elétrico. A energia ficava caindo e voltando, como um pisca-pisca. Sem luz, sem ter o que fazer. Pensando bem, até foi bom que o tempo estava fechado hoje, por que se o tempo estivesse bom e não pudessem lançar os búlgaros por conta da intermitência da energia, o comandante do navio iria por uma meia dúzia no pelotão de fuzilamento. E o pisca-pisca durou praticamente a manhã toda. A única coisa que nos restou foi ficar batendo papo.
A tarde também foi morta, o pessoal que viciou em assistir Roma fez maratona. Eu fui dormir. Depois de acordar fiquei o restante da tarde ouvindo música e lendo.
A noite fiquei jogando vídeo game com os búlgaros e dando risada. Era o que tínhamos pra fazer. Dia tedioso ao extremo.
Amanhã vão tentar lançar o pessoal mais uma vez. Tomara que dê certo.
Abraços a todos.
(11/11/11) – É hoje foi o dia da pá virada mesmo. Sistema sanitário fora por várias vezes durante o dia, internet lentíssima (mais que o normal) e quase um coração infartado. Pera ai, infarto? É brincadeira não é?
Quem me dera! Lembram do papai Smurf? Bem ele, o senhorzinho que me manteve acordado por boa parte da noite, quase dormiu pra sempre. Pela manhã foi dado postos de vôo para desembarcar os búlgaros na base deles. Fizeram o briefing de operações aéreas e então começou a nevar. Tiveram que interromper. Por muita sorte. Quando o Doc viu o senhor, ele estava em isquemia e foi levado as pressas para a enfermaria do navio, e o navio saiu a toda de Livingstone em direção a Frei, onde tem um hospital com condições de atende-lo. Por sorte, ninguém havia sido desembarcado na ilha graças a neve que começou a cair, senão o problema iria ser gigantesco, e por mais sorte ainda o Doc é cardiologista. Os medicamentos que o Doc administrou surtiram efeito e quando chegamos a Frei ele estava com pouquíssima isquemia e estável. Juntamente com ele, desembarcou mais um búlgaro para fazer companhia e o navio seguiu para Ferraz para ver se conseguia fazer alguma carga hoje e não perder o dia. Mas, aqui é antártica e o tempo estava fechando. Não sobrou outra alternativa senão traçar rumo a Livingstone para desembarcar os búlgaros que estão a bordo. E o “Mua-há-há” foi para o espaço, pelo menos por mais um dia.
E o sistema de esgoto ficou o dia todo saindo e voltando de manutenção. Diferente do sistema que temos em casa, que usa a gravidade, o do navio é um sistema a vácuo. Você aperta o botãozinho da descarga e parece que a privada quer te sugar. Entretanto quando acontece algum entupimento, o sistema todo tem que ser parado e é necessário sair procurando onde está o problema. As vezes é rápido mas não é sempre.
E tava todo mundo dando choque hoje! No fim do dia, foi até engraçado. Eu tirando sarro de todo mundo, dizendo que mundo estava sincronizado e ai o clima descontraiu. Começaram as piadinhas de novo e o humor de todo mundo melhorou. Depois de um 11/11/11 de pernas pro ar, não era de se estranhar que todo mundo estivesse estressado. A bruxa correu solta por aqui, e quem sabe amanhã não seremos presenteados com um belo dia de sol, hein?
Um grande abraço a todos, sai zica!
(É um ônibus!) – Como o tempo não ajudou, não foi possível fazer a chata de óleo que estava prevista. Tanto que nem tocaram alvorada as 5:30, somente tocaram no horário normal que é as 7 da manhã. Hoje eu resolvi que eu iria dormir até mais tarde, levantei as 10 horas, o que não fazia a muito tempo. Chegamos de volta a Frei para um vôo de apoio que traz alimentos frescos, como frutas e verduras, para a estação e também traz uma comitiva búlgara e sua carga que o navio levará para a estação deles que fica na ilha Livingstone.
Essa é uma das coisas bacanas aqui da antártica. Todo mundo se ajuda. Usamos a pista chilena para nossos vôos e para dar apoio aos búlgaros que tem uma pequena estação ao lado de uma estação espanhola, que também presta serviços a eles e assim vai. Todo mundo sabe que está isolado e que quando é necessário alguma coisa, você solicita ao seu vizinho mais próximo e assim por diante. Trocas de favores são comuns por aqui. Ao lado da estação de Frei, tem uma estação russa, um pouco mais longe temos uma chinesa, uma uruguaia e uma argentina. Tudo fica no visual uma da outra. Próximo a Ferraz, tem refúgios equatorianos e a base polonesa. Uma vizinhança bastante improvável.
Anteontem eu não vi o Hercules pousar mas hoje eu não perderia a chance. O horário previsto da chegada dele era 14 h e15 min, e foi exatamente nesse horário que ele chegou. E eu cheguei atrasado! Enquanto eu estava me preparando para sair ao convés externo para fotografar, o avião pousou. Quando eu cheguei ao passadiço o comandante ficou tirando sarro de mim. Não tem problema, por que eu sabia também que após eles descarergarem o matéria para a estação, os búlgaros e seus materiais, eles fariam treinamento de pouso e decolagem e que eu teria a oportunidade de ver.
Então fiquei ali, esperando, esperando, esperando até que o avião decolou. Ele deu a volta por trás de algumas montanhas e veio chegando por cima do navio, e era enorme. É um ônibus com asas, e 4 motores turbohélice. Passou por cima do navio e foi em direção a pista, fez toque e arremetida e repetiu isso mais uma vezes e na terceira passagem pelo navio pousou. Foi bacana, uma pena que o sol estava contra a gente e as fotos de aproximação da aeronave na pista ficaram claras e sem graça demais. Mas tirei algumas aproximando do navio.
Mais para o fim do dia os búlgaros vieram a bordo, e como eu estava no quarto sozinho, colocaram 3 deles por lá. Já espero uma noite barulhenta. Assim que todos embarcaram, o navio traçou rumou a Livingstone para leva-los até lá. Pelo menos será somente uma noite barulhenta e depois um quarto só pra mim.
Mua-há-há!
No jantar, ficamos conversando com os búlgaros e uma constatação veio. Realmente eles parecem com a Dilma (pra quem não sabe a Dilma tem descendência búlgara). São bastante simpáticos e o chefe deles parece o papai smurf, que por sinal vai ficar no meu quarto. E dele de quem mais eu espero barulho a noite, mas fazer o que? Vim pra cá por quis, não é?
Devemos chegar em Livingstone amanhã cedo por volta das 5 horas da manhã e já está previsto postos de vôo, já que existe uma previsão de janela para a manhã. Mas como diz o Cláudião, previsão de tempo com mais do que 5 minutos aqui na antártica, é chute.
Por hoje é isso pessoal, um grande abraço a todos!
(Café, café, café) – Juntamente com a comitiva que veio visitar o navio, vieram também o pessoal do arsenal que veio pra montar o gerador e os tanques de etanol para gerar energia na estação, e eles ficaram no meu quarto.
E o troll (essa é pra ti Evandro) fez falta.
Antes, ocasionalmente quando o cansaço era grande, meu companheiro de quarto dava umas roncadas. E quem não faz isso de vez em quando? Mas não era muito e nada que incomodasse, era mais pra tirar um sarro do Baracho mesmo. Já essa galera… Pareciam que estava apostando um racha, ou eram três motores Caterpillar funcionando a todo o vapor. Era uma sinfonia, quando um parava o outro começava. Foi difícil dormir.
Aproveitei a parte da manhã pra lavar roupas e dar uma organizada em algumas coisas. E o pessoal da marinha fez o desembarque do pessoal e das bagagens em Frei. Descobri também que o C-130 da FAB não conseguiu decolar ontem por causa do mau tempo, e o pessoal teve que dormir num hotel de transito que existe na estação chilena.
Em um determinado momento da manhã ouviu-se no fonoclama “postos de emergência, lançar botes”. Mas não vi o que aconteceu. Na hora do almoço o pessoal começou a contar o que aconteceu. E foi engraçado. Perto da estação de Frei, existem várias estações de outros países, e uma delas é a da Argentina. Os argentinos estavam pegando pessoal do navio e levando em terra e também as bagagens. Segundo o que o pessoal me falou, eles tinham um bote pequeno comparado ao que é usado aqui no navio, e eles vinham saltando as ondas ao invés de ir em ziguezague. Depois de eles desembarcarem o pessoal e estavam retornando ao navio para pegar as bagagens, eles estavam vindo no ritmo alucinado, saltando ondas até que de repente o motor de popa sai voando do bote! Quem viu a cena disse que foi super engraçado, que o motor saiu do bote em câmera lenta ao melhor estilo de desenho animado. Segundo o tenente Nunes, foi “uma oferenda para Netuno”.
Na parte da tarde, retornamos a Ferraz para desembarcar o pessoal do arsenal e continuar com o abastecimento de óleo diesel para a estação, e eu voltei a ter o quarto só para mim.
A noite ficamos de papo na Praça d’Armas até meia noite. Amanhã está previsto toque de cargas para as 5:30 da manhã para fazer mais uma carga de óleo para a estação e depois retornaremos a Frei para dar suporte ao vôo de apoio.
Agora é hora de dormir, grande abraço a todos!
(Muita gente, pouco espaço) – Chegamos a estação de Frei pela manhã para dar suporte ao primeiro vôo de apoio, que estava trazendo carga, gente e “convidados”. Este vôo, ao regressar para o Brasil, levará algumas pessoas que estavam conosco desde que embarcamos em Rio Grande dia 13 de outubro.
Também estava programada uma visita nossa a Frei. E ela aconteceu. Só que foi tão rápido que não deu pra conhecer muita coisa. Antes de nós chegarmos em instalações próximas a pista de pouso, onde o C-130 da FAB faria o pouso, já estavam nos chamando de volta ao navio. O comandante Marcelo conseguiu estender um pouco a visita, mas não por muito tempo.
Frei é uma base muito grande, aonde tem hospital e escola. Algumas pessoas passam 2 anos aqui e dessa forma trazem suas famílias. Outra curiosidade sobre a estação de Frei é de que as únicas pessoas que nasceram na antártica, nasceram ali. Pois é gente, eu não sabia mas tem algumas pessoas que vão ter em seu RG (ou o que quer que seja que os chilenos chamem) o local de nascimento “Antártica”. E eu que já tinha achado o máximo a Ju Dias ter em seu RG o local de nascimento como “Território Nacional”. Ao lado dela, temos uma estação Russa, onde está a igreja católica ortodoxa mais ao sul do mundo.
Então fizemos nossa visita relâmpago por Frei e nos despedimos do pessoal que volta para o Brasil pelo vôo de apoio. Vou sentir falta desse pessoal, do meu companheiro de quarto e gente finíssima, o mergulhador Roberto Baracho (bora fazer um mergulho?); da professora Eunice provocando o Marcinho e sempre as voltas com a internet (ou a falta dela) pra falar com a família; do cinegrafista Evandro pelas piadinhas infames e de duplo sentido um com o outro o dia inteiro (nos vemos por Sampa), e do Haroldo pelas suas histórias e aventuras, dicas de fotografia, fotos e pela enorme simpatia.
Logo depois do almoço consegui definitivamente fazer o PAM funcionar, com teste in vivo e tudo. Agora ta lindo de usar. Também começou a chegar uma tonelada de gente. O pessoal que chegou a bordo eram oficiais das três forças armadas, dois deputados, uma representante do Ministério do Meio Ambiente, uma juíza, alguns alunos da escola naval, pessoal do arsenal e pesquisadores que ficarão em Ferraz e alguns chupins.
O plano era pegar essas pessoas “importantes” (arsenal e pesquisadores não são gente importante, descem depois) deixa-las em Ferraz por uma noite, recolhe-las no dia seguinte e leva-las a Frei (4 horas de navio) para embarcar no Hercules pela manhã para voltar ao Brasil. Só que esqueceram de avisar pra quem aprontou essa com a tripulação do navio, por que logicamente essa ordem vem de gente de cima, que aqui é Antártica e não o Caribe. Tempo bom é exceção, não da pra garantir que eles desçam em terra. E hoje não foi uma exceção. Vão ter que ficar no navio, e não tem espaço pra eles. Vão ter que dormir no sofá.
Acho um desperdício de recursos e tempo essa viagem de turismo pra esse pessoal. Já tem o vôo parlamentar marcado pra janeiro, o cronograma já é por natureza atrasado aqui e ainda ficam colocando gente “importante” pra passear na antártica. Não vejo a importância de, por exemplo, uma dentista (que não o oficial dentista que é obrigado ter no navio) nessa viagem. Só fico com dó do pessoal que trabalhou um monte hoje, e vai ter que trabalhar mais um monte amanhã para por esse povo de volta em terra.
Abraços a todos.
(Hadouken!) – Hoje dia amanheceu lindo, com sol, sem nuvens e pouco vento. Estamos na Ilha Nelson próximo ao refúgio de Cruls. Deram toque de vôo, deixamos tudo prontinho pra descer, enviaram o pessoal do arsenal para conserto de refúgio e…só!
Não enviaram a gente pra ilha. Hoje não existiam desculpas de mau tempo. Não mandaram por que não quiseram. Tivemos o dia inteiro com condições de nos enviar pra lá tanto de helicóptero quanto de bote. E por que não enviaram?
A Franciane soltou os cachorros com todo mundo do comando, e com razão. Não estamos aqui a turismo. Não deixei minhas coisas no laboratório paradas por 30 dias pra ficar aqui de passeio. Quando o tempo está ruim, a gente sabe que está ruim e que não tem o que fazer. Vieram até com o argumento de que “o projeto de vocês não é mais importante que o de ninguém”. Só que nós somos o ÚNICO projeto embarcado que necessita ir em terra.
Falta tato, falta vontade e falta dialogo com o pesquisador embarcado. Não nos chamam para os planejamentos das operações do dia. As vezes nem o coordenador da Secirm, que faria a ponte entre nós e o comando, é chamado. Em maio é feito um planejamento geral de todos os projetos para a próxima operação. E estão querendo que ele funcione a risca aqui no fim do ano. Não dá! Esse continente não aceita planejamento a risca. Tem que fazer o que for possível no dia, chamando todos os coordenadores dos projetos e o da Secirm que estão embarcados no momento, conforme o que foi planejado em maio, e discutir as opções do dia. Sabemos que eles tem a parte logística também mas daria, sim, para encaixar o pessoal que precisa desembarcar.
Muita coisa precisa ser revista, é uma logística grande e o custo é muito alto para ser desperdiçado com hierarquia militar inflexível. Sabemos que o navio é incorporado a marinha e que sem a marinha o Proantar não seria viável, mas temos que lembrar que o navio foi comprado com dinheiro do Ministério da Ciência e Tecnologia e a missão do navio é a de apoio a pesquisa. E não estamos tendo apoio a contento. Não é navio de guerra e não estão fazendo um favor pra gente. Reformaram o refugio para um projeto que deve aparecer aqui apenas no ano que vem. E nós que estamos aqui agora? Todos os projetos não são iguais? Acho que favoreceram o outro projeto, que eu não faço idéia de qual seja, e não estou desmerecendo também. Tudo é relevante.
Inclusive o objetivo maior, e velado, do Proantar é político. É garantir um pedacinho do Brasil na antártica caso um dia isso seja “fatiado”, e graças ao tratado de Madri isso ficou congelado. Mas não significa que um dia não podem mudar isso, e quem for membro consultivo, incluindo o Brasil graças a pesquisas aqui, ganha uma fatia.
Se as pesquisas começarem a definhar, quem vai perder é justamente a parte mais interessada.
(Hum! Pizza…) – Como virou rotina na baia do almirantado, o vento anda meio enfezado. Tivemos ventos de 60 a 110 km/h durante praticamente o dia todo. Como resultado, não houve atividades no navio. A única atividade que o pessoal fez foi viciar no seriado Roma. Assistiram a 5 episódios seguidos, haja vontade.
Outra atividade importante do dia foi apanhar dos sistemas de internet e telefonia. Alguém ainda lembra como era a internet discada? Pois é, estou vivendo um flashback nada saudosista por aqui. A telefonia também é um problema. As ligações não completam. Ontem recebi ligação de meus pais, só deu tempo de dizer “oi” e dizer que estava ventando muito. Depois me falaram que me ligaram outra vez, mas não conseguiram me localizar. Acontece.
A outra coisa que acabei fazendo ontem foi tirar umas fotos pro Baracho, pro curso de mergulho. Fomos até o convoo para fotografar sobre roupas secas e equipamentos utilizados em mergulhos polares. Mas quem congelou mesmo fui eu. Como o convoo é um lugar aberto na popa do navio, sopra um vento lazarento. Lembram dos ventos de 60 a 110 km/h? Então, junte isso e uma temperatura de 1°C, e você verá como é fácil virar um picolé por aqui. Felizmente eram poucas fotos o que durou aproximadamente 10 minutos, mas foi tempo suficiente pra que minhas mãos ficassem bem geladas. Felizmente dentro do navio é quentinho e em menos de 5 minutos tudo estava bem novamente.
A noite, como é tradição de domingo no navio, tivemos rodízio de pizza. É óbvio que eu me acabei comendo. Como não resta muito o que fazer por hoje, vou ler um pouco e dormir. Amanhã estaremos na Ilha Nelson, um pouco mais ao sul de onde estamos hoje, para reparo de um dos refúgios brasileiros na ilha e, quem sabe, nós desceremos para a coleta.
Um grande abraço a todos!