(Era com emoção?) – E essa noite foi difícil dormir. Logo após sairmos de Livingstone no fim da tarde de ontem, o mar começou a ficar agitado. Perto de meia noite, quando fui dormir, entramos no Drake. E o navio balançava muito! Era cada cacetada na água, que, segundo quem estava no passadiço, voava água até lá. Eu ouvia do meu camarote a “chuva” que caia em cima dele já que ele fica bem na proa do navio. Demorei muito pra dormir, até acostumar novamente com esse balanço todo e com o barulho do navio batendo na água.
Acordo e resolvo olhar o relógio, eram 9:50. Pensei “Putz, nem ouvi a alvorada hoje”. Levantei peguei a escova de dentes, passei a pasta e de repente ouço no fonoclama: - Alagamento real em Bravo. E toca a sirene de emergência.
“Não acredito!” foi a primeira coisa que pensei enquanto jogava minha cabeça pra trás. Logo em seguida vem a Beatriz me chamar para ir a Praça d’Armas, lugar onde somos instruídos a nos reunir numa emergência.
Terminei de escovar os dentes, me troquei e fui para a Praça d’Armas. Quando cheguei lá, já haviam algumas pessoas no local e com o tempo foi chegando o restante. A maioria com cara amassada e/ou de ressaca graças ao coquetel que tivemos na noite anterior em comemoração ao fim da primeira etapa da XXX Operantar. Tudo o que podíamos fazer era esperar.
Mais tarde veio o Imediato conversar com a gente para dar informações sobre o incidente. Disse que tinha um alagamento na praça de máquinas que as bombas para esgotamento da água estavam funcionando e que o nível de água estava baixando mas ainda não sabiam a origem da água. Só para saber: é normal ter água na praça de máquinas até um certo nível, existem bombas que esvaziam o local de tempos em tempos.
De tempos em tempos viam informações sobre a situação e ela só melhorava, até que ao meio dia foi dado volta aos postos de emergência. A situação estava resolvida. Agora iriam começar uma avaliação minuciosa de onde estava o problema. Rumores diziam que poderia ter sido um vazamento no tanque de aguada do navio, mas era apenas rumor. A tarde, como não tinha o que fazer fui tirar uma soneca, afinal tudo tinha voltado a normalidade e a noite de sono não tinha sido boa.
Depois de levantar assisti um pouco de seriado e por volta de 7 horas subi ao passadiço. Fez um dia bonito hoje, com sol e pouquíssimas nuvens. Então, enquanto eu estava lá por cima, o comandante do navio chegou e fez um comunicado para todo o navio, elogiando a performance da equipe pela velocidade e eficiência da ação (e foi mesmo) e que depois de uma longa avaliação não detectaram nenhum problema estrutural no navio, ou seja nada de casco quebrado ou coisas do tipo, e que a água na praça das máquinas não havia voltado. Resumindo, não se sabe o que aconteceu ao certo.
Outro fato importante do dia foi que as 19:29 (20:29 no Brasil) atravessamos o paralelo 60° sul, e deixamos oficialmente a antártica.
Não vemos mais terra nem neve, mas o friozinho de 0°C ainda está aqui como uma última lembrança desse continente incrível e belíssimo que tive a oportunidade de conhecer. Com certeza foi uma experiência única na minha vida que rendeu boas histórias e que já estou começando a sentir saudades.
Nesse momento estamos atravessando o Drake e aqui vai minha localização: 59°26’ S, 64°05’ W
Um grande abraço a todos!
(Finalmente!) – Hoje pela manhã tivemos postos de vôo. Aquela velha conhecida, alvorada as 5:30, todo mundo pronto e o tempo fecha. Tinha tudo para ser um dia igual aos anteriores mas, de repente, ouço ligarem os motores da aeronave.
Viva!
As 10 horas da manhã decolou o primeiro vôo. Levaram todos os bulgaros nos dois vôos seguintes e então começaram as cargas. O vento ainda estava forte, ficava variando próximo ao limite do envelope de vôo que é de 30 nós. Ele variava de 20 a 40 nós, e ficavam aguardando uma janela para a decolagem. E assim foi a manhã toda. Terminaram de levar as cargas dos búlgaros e ficou faltando apenas combustível: gasolina para abastecer motos de neve e diesel para os geradores. Esses combustíveis estão em toneis de 200 litros e normalmente são transportados do lado de fora da aeronave, mas com o envelope no limite não era possível fazê-lo. Então veio o improviso. Procuraram bombonas e o que mais fosse possível colocar combustível dentro e transportar internamente até a base.
O objetivo do comando era dar um mínimo de combustível para que os búlgaros pudessem sobreviver por 1 mês, até que o navio voltasse pra cá. O que viesse além era bônus. Duas viagens foram feitas dessa forma e o tempo foi firmando e melhorando até que conseguiram fazer vertrep (carga externa no helicóptero). E o tempo colaborou o restante do dia. Fizeram todas as mais de 20 cargas que eles previam para terminar o abastecimento e lançamento completo dos búlgaros, sem necessidade de retorno.
Assim como em Elefante, no último dia possível as coisas funcionaram. Aqui é sempre aos 47 do segundo tempo, sempre no limite.
Por volta de 8 horas toda a carga foi completada, e o navio traçou rumo a Punta Arenas. A previsão de chegada por lá é dia 17 mas o navio só poderá atracar dia 18, que é a data reservada para ele no porto. É possível que ficamos navegando nas proximidades do porto até que nossa vez chegue. Mas isso é outra história.
Abraços a todos!
(É natal?) – Como virou rotina alvorada as 5:30 da manhã, hoje não foi diferente. Todos acordam, com tempo bom para fazer o trabalho do dia, fazem o briefing, tocam postos de vôo ou carga e o tempo fecha. Todo dia tem sido assim nos últimos 4 dias e na maior parte do tempo nessa Operantar.
Hoje tivemos uma novidade em termos de pane. Problema elétrico. A energia ficava caindo e voltando, como um pisca-pisca. Sem luz, sem ter o que fazer. Pensando bem, até foi bom que o tempo estava fechado hoje, por que se o tempo estivesse bom e não pudessem lançar os búlgaros por conta da intermitência da energia, o comandante do navio iria por uma meia dúzia no pelotão de fuzilamento. E o pisca-pisca durou praticamente a manhã toda. A única coisa que nos restou foi ficar batendo papo.
A tarde também foi morta, o pessoal que viciou em assistir Roma fez maratona. Eu fui dormir. Depois de acordar fiquei o restante da tarde ouvindo música e lendo.
A noite fiquei jogando vídeo game com os búlgaros e dando risada. Era o que tínhamos pra fazer. Dia tedioso ao extremo.
Amanhã vão tentar lançar o pessoal mais uma vez. Tomara que dê certo.
Abraços a todos.
(11/11/11) – É hoje foi o dia da pá virada mesmo. Sistema sanitário fora por várias vezes durante o dia, internet lentíssima (mais que o normal) e quase um coração infartado. Pera ai, infarto? É brincadeira não é?
Quem me dera! Lembram do papai Smurf? Bem ele, o senhorzinho que me manteve acordado por boa parte da noite, quase dormiu pra sempre. Pela manhã foi dado postos de vôo para desembarcar os búlgaros na base deles. Fizeram o briefing de operações aéreas e então começou a nevar. Tiveram que interromper. Por muita sorte. Quando o Doc viu o senhor, ele estava em isquemia e foi levado as pressas para a enfermaria do navio, e o navio saiu a toda de Livingstone em direção a Frei, onde tem um hospital com condições de atende-lo. Por sorte, ninguém havia sido desembarcado na ilha graças a neve que começou a cair, senão o problema iria ser gigantesco, e por mais sorte ainda o Doc é cardiologista. Os medicamentos que o Doc administrou surtiram efeito e quando chegamos a Frei ele estava com pouquíssima isquemia e estável. Juntamente com ele, desembarcou mais um búlgaro para fazer companhia e o navio seguiu para Ferraz para ver se conseguia fazer alguma carga hoje e não perder o dia. Mas, aqui é antártica e o tempo estava fechando. Não sobrou outra alternativa senão traçar rumo a Livingstone para desembarcar os búlgaros que estão a bordo. E o “Mua-há-há” foi para o espaço, pelo menos por mais um dia.
E o sistema de esgoto ficou o dia todo saindo e voltando de manutenção. Diferente do sistema que temos em casa, que usa a gravidade, o do navio é um sistema a vácuo. Você aperta o botãozinho da descarga e parece que a privada quer te sugar. Entretanto quando acontece algum entupimento, o sistema todo tem que ser parado e é necessário sair procurando onde está o problema. As vezes é rápido mas não é sempre.
E tava todo mundo dando choque hoje! No fim do dia, foi até engraçado. Eu tirando sarro de todo mundo, dizendo que mundo estava sincronizado e ai o clima descontraiu. Começaram as piadinhas de novo e o humor de todo mundo melhorou. Depois de um 11/11/11 de pernas pro ar, não era de se estranhar que todo mundo estivesse estressado. A bruxa correu solta por aqui, e quem sabe amanhã não seremos presenteados com um belo dia de sol, hein?
Um grande abraço a todos, sai zica!
(É um ônibus!) – Como o tempo não ajudou, não foi possível fazer a chata de óleo que estava prevista. Tanto que nem tocaram alvorada as 5:30, somente tocaram no horário normal que é as 7 da manhã. Hoje eu resolvi que eu iria dormir até mais tarde, levantei as 10 horas, o que não fazia a muito tempo. Chegamos de volta a Frei para um vôo de apoio que traz alimentos frescos, como frutas e verduras, para a estação e também traz uma comitiva búlgara e sua carga que o navio levará para a estação deles que fica na ilha Livingstone.
Essa é uma das coisas bacanas aqui da antártica. Todo mundo se ajuda. Usamos a pista chilena para nossos vôos e para dar apoio aos búlgaros que tem uma pequena estação ao lado de uma estação espanhola, que também presta serviços a eles e assim vai. Todo mundo sabe que está isolado e que quando é necessário alguma coisa, você solicita ao seu vizinho mais próximo e assim por diante. Trocas de favores são comuns por aqui. Ao lado da estação de Frei, tem uma estação russa, um pouco mais longe temos uma chinesa, uma uruguaia e uma argentina. Tudo fica no visual uma da outra. Próximo a Ferraz, tem refúgios equatorianos e a base polonesa. Uma vizinhança bastante improvável.
Anteontem eu não vi o Hercules pousar mas hoje eu não perderia a chance. O horário previsto da chegada dele era 14 h e15 min, e foi exatamente nesse horário que ele chegou. E eu cheguei atrasado! Enquanto eu estava me preparando para sair ao convés externo para fotografar, o avião pousou. Quando eu cheguei ao passadiço o comandante ficou tirando sarro de mim. Não tem problema, por que eu sabia também que após eles descarergarem o matéria para a estação, os búlgaros e seus materiais, eles fariam treinamento de pouso e decolagem e que eu teria a oportunidade de ver.
Então fiquei ali, esperando, esperando, esperando até que o avião decolou. Ele deu a volta por trás de algumas montanhas e veio chegando por cima do navio, e era enorme. É um ônibus com asas, e 4 motores turbohélice. Passou por cima do navio e foi em direção a pista, fez toque e arremetida e repetiu isso mais uma vezes e na terceira passagem pelo navio pousou. Foi bacana, uma pena que o sol estava contra a gente e as fotos de aproximação da aeronave na pista ficaram claras e sem graça demais. Mas tirei algumas aproximando do navio.
Mais para o fim do dia os búlgaros vieram a bordo, e como eu estava no quarto sozinho, colocaram 3 deles por lá. Já espero uma noite barulhenta. Assim que todos embarcaram, o navio traçou rumou a Livingstone para leva-los até lá. Pelo menos será somente uma noite barulhenta e depois um quarto só pra mim.
Mua-há-há!
No jantar, ficamos conversando com os búlgaros e uma constatação veio. Realmente eles parecem com a Dilma (pra quem não sabe a Dilma tem descendência búlgara). São bastante simpáticos e o chefe deles parece o papai smurf, que por sinal vai ficar no meu quarto. E dele de quem mais eu espero barulho a noite, mas fazer o que? Vim pra cá por quis, não é?
Devemos chegar em Livingstone amanhã cedo por volta das 5 horas da manhã e já está previsto postos de vôo, já que existe uma previsão de janela para a manhã. Mas como diz o Cláudião, previsão de tempo com mais do que 5 minutos aqui na antártica, é chute.
Por hoje é isso pessoal, um grande abraço a todos!
(Café, café, café) – Juntamente com a comitiva que veio visitar o navio, vieram também o pessoal do arsenal que veio pra montar o gerador e os tanques de etanol para gerar energia na estação, e eles ficaram no meu quarto.
E o troll (essa é pra ti Evandro) fez falta.
Antes, ocasionalmente quando o cansaço era grande, meu companheiro de quarto dava umas roncadas. E quem não faz isso de vez em quando? Mas não era muito e nada que incomodasse, era mais pra tirar um sarro do Baracho mesmo. Já essa galera… Pareciam que estava apostando um racha, ou eram três motores Caterpillar funcionando a todo o vapor. Era uma sinfonia, quando um parava o outro começava. Foi difícil dormir.
Aproveitei a parte da manhã pra lavar roupas e dar uma organizada em algumas coisas. E o pessoal da marinha fez o desembarque do pessoal e das bagagens em Frei. Descobri também que o C-130 da FAB não conseguiu decolar ontem por causa do mau tempo, e o pessoal teve que dormir num hotel de transito que existe na estação chilena.
Em um determinado momento da manhã ouviu-se no fonoclama “postos de emergência, lançar botes”. Mas não vi o que aconteceu. Na hora do almoço o pessoal começou a contar o que aconteceu. E foi engraçado. Perto da estação de Frei, existem várias estações de outros países, e uma delas é a da Argentina. Os argentinos estavam pegando pessoal do navio e levando em terra e também as bagagens. Segundo o que o pessoal me falou, eles tinham um bote pequeno comparado ao que é usado aqui no navio, e eles vinham saltando as ondas ao invés de ir em ziguezague. Depois de eles desembarcarem o pessoal e estavam retornando ao navio para pegar as bagagens, eles estavam vindo no ritmo alucinado, saltando ondas até que de repente o motor de popa sai voando do bote! Quem viu a cena disse que foi super engraçado, que o motor saiu do bote em câmera lenta ao melhor estilo de desenho animado. Segundo o tenente Nunes, foi “uma oferenda para Netuno”.
Na parte da tarde, retornamos a Ferraz para desembarcar o pessoal do arsenal e continuar com o abastecimento de óleo diesel para a estação, e eu voltei a ter o quarto só para mim.
A noite ficamos de papo na Praça d’Armas até meia noite. Amanhã está previsto toque de cargas para as 5:30 da manhã para fazer mais uma carga de óleo para a estação e depois retornaremos a Frei para dar suporte ao vôo de apoio.
Agora é hora de dormir, grande abraço a todos!
(Muita gente, pouco espaço) – Chegamos a estação de Frei pela manhã para dar suporte ao primeiro vôo de apoio, que estava trazendo carga, gente e “convidados”. Este vôo, ao regressar para o Brasil, levará algumas pessoas que estavam conosco desde que embarcamos em Rio Grande dia 13 de outubro.
Também estava programada uma visita nossa a Frei. E ela aconteceu. Só que foi tão rápido que não deu pra conhecer muita coisa. Antes de nós chegarmos em instalações próximas a pista de pouso, onde o C-130 da FAB faria o pouso, já estavam nos chamando de volta ao navio. O comandante Marcelo conseguiu estender um pouco a visita, mas não por muito tempo.
Frei é uma base muito grande, aonde tem hospital e escola. Algumas pessoas passam 2 anos aqui e dessa forma trazem suas famílias. Outra curiosidade sobre a estação de Frei é de que as únicas pessoas que nasceram na antártica, nasceram ali. Pois é gente, eu não sabia mas tem algumas pessoas que vão ter em seu RG (ou o que quer que seja que os chilenos chamem) o local de nascimento “Antártica”. E eu que já tinha achado o máximo a Ju Dias ter em seu RG o local de nascimento como “Território Nacional”. Ao lado dela, temos uma estação Russa, onde está a igreja católica ortodoxa mais ao sul do mundo.
Então fizemos nossa visita relâmpago por Frei e nos despedimos do pessoal que volta para o Brasil pelo vôo de apoio. Vou sentir falta desse pessoal, do meu companheiro de quarto e gente finíssima, o mergulhador Roberto Baracho (bora fazer um mergulho?); da professora Eunice provocando o Marcinho e sempre as voltas com a internet (ou a falta dela) pra falar com a família; do cinegrafista Evandro pelas piadinhas infames e de duplo sentido um com o outro o dia inteiro (nos vemos por Sampa), e do Haroldo pelas suas histórias e aventuras, dicas de fotografia, fotos e pela enorme simpatia.
Logo depois do almoço consegui definitivamente fazer o PAM funcionar, com teste in vivo e tudo. Agora ta lindo de usar. Também começou a chegar uma tonelada de gente. O pessoal que chegou a bordo eram oficiais das três forças armadas, dois deputados, uma representante do Ministério do Meio Ambiente, uma juíza, alguns alunos da escola naval, pessoal do arsenal e pesquisadores que ficarão em Ferraz e alguns chupins.
O plano era pegar essas pessoas “importantes” (arsenal e pesquisadores não são gente importante, descem depois) deixa-las em Ferraz por uma noite, recolhe-las no dia seguinte e leva-las a Frei (4 horas de navio) para embarcar no Hercules pela manhã para voltar ao Brasil. Só que esqueceram de avisar pra quem aprontou essa com a tripulação do navio, por que logicamente essa ordem vem de gente de cima, que aqui é Antártica e não o Caribe. Tempo bom é exceção, não da pra garantir que eles desçam em terra. E hoje não foi uma exceção. Vão ter que ficar no navio, e não tem espaço pra eles. Vão ter que dormir no sofá.
Acho um desperdício de recursos e tempo essa viagem de turismo pra esse pessoal. Já tem o vôo parlamentar marcado pra janeiro, o cronograma já é por natureza atrasado aqui e ainda ficam colocando gente “importante” pra passear na antártica. Não vejo a importância de, por exemplo, uma dentista (que não o oficial dentista que é obrigado ter no navio) nessa viagem. Só fico com dó do pessoal que trabalhou um monte hoje, e vai ter que trabalhar mais um monte amanhã para por esse povo de volta em terra.
Abraços a todos.
(Hadouken!) – Hoje dia amanheceu lindo, com sol, sem nuvens e pouco vento. Estamos na Ilha Nelson próximo ao refúgio de Cruls. Deram toque de vôo, deixamos tudo prontinho pra descer, enviaram o pessoal do arsenal para conserto de refúgio e…só!
Não enviaram a gente pra ilha. Hoje não existiam desculpas de mau tempo. Não mandaram por que não quiseram. Tivemos o dia inteiro com condições de nos enviar pra lá tanto de helicóptero quanto de bote. E por que não enviaram?
A Franciane soltou os cachorros com todo mundo do comando, e com razão. Não estamos aqui a turismo. Não deixei minhas coisas no laboratório paradas por 30 dias pra ficar aqui de passeio. Quando o tempo está ruim, a gente sabe que está ruim e que não tem o que fazer. Vieram até com o argumento de que “o projeto de vocês não é mais importante que o de ninguém”. Só que nós somos o ÚNICO projeto embarcado que necessita ir em terra.
Falta tato, falta vontade e falta dialogo com o pesquisador embarcado. Não nos chamam para os planejamentos das operações do dia. As vezes nem o coordenador da Secirm, que faria a ponte entre nós e o comando, é chamado. Em maio é feito um planejamento geral de todos os projetos para a próxima operação. E estão querendo que ele funcione a risca aqui no fim do ano. Não dá! Esse continente não aceita planejamento a risca. Tem que fazer o que for possível no dia, chamando todos os coordenadores dos projetos e o da Secirm que estão embarcados no momento, conforme o que foi planejado em maio, e discutir as opções do dia. Sabemos que eles tem a parte logística também mas daria, sim, para encaixar o pessoal que precisa desembarcar.
Muita coisa precisa ser revista, é uma logística grande e o custo é muito alto para ser desperdiçado com hierarquia militar inflexível. Sabemos que o navio é incorporado a marinha e que sem a marinha o Proantar não seria viável, mas temos que lembrar que o navio foi comprado com dinheiro do Ministério da Ciência e Tecnologia e a missão do navio é a de apoio a pesquisa. E não estamos tendo apoio a contento. Não é navio de guerra e não estão fazendo um favor pra gente. Reformaram o refugio para um projeto que deve aparecer aqui apenas no ano que vem. E nós que estamos aqui agora? Todos os projetos não são iguais? Acho que favoreceram o outro projeto, que eu não faço idéia de qual seja, e não estou desmerecendo também. Tudo é relevante.
Inclusive o objetivo maior, e velado, do Proantar é político. É garantir um pedacinho do Brasil na antártica caso um dia isso seja “fatiado”, e graças ao tratado de Madri isso ficou congelado. Mas não significa que um dia não podem mudar isso, e quem for membro consultivo, incluindo o Brasil graças a pesquisas aqui, ganha uma fatia.
Se as pesquisas começarem a definhar, quem vai perder é justamente a parte mais interessada.
(Hum! Pizza…) – Como virou rotina na baia do almirantado, o vento anda meio enfezado. Tivemos ventos de 60 a 110 km/h durante praticamente o dia todo. Como resultado, não houve atividades no navio. A única atividade que o pessoal fez foi viciar no seriado Roma. Assistiram a 5 episódios seguidos, haja vontade.
Outra atividade importante do dia foi apanhar dos sistemas de internet e telefonia. Alguém ainda lembra como era a internet discada? Pois é, estou vivendo um flashback nada saudosista por aqui. A telefonia também é um problema. As ligações não completam. Ontem recebi ligação de meus pais, só deu tempo de dizer “oi” e dizer que estava ventando muito. Depois me falaram que me ligaram outra vez, mas não conseguiram me localizar. Acontece.
A outra coisa que acabei fazendo ontem foi tirar umas fotos pro Baracho, pro curso de mergulho. Fomos até o convoo para fotografar sobre roupas secas e equipamentos utilizados em mergulhos polares. Mas quem congelou mesmo fui eu. Como o convoo é um lugar aberto na popa do navio, sopra um vento lazarento. Lembram dos ventos de 60 a 110 km/h? Então, junte isso e uma temperatura de 1°C, e você verá como é fácil virar um picolé por aqui. Felizmente eram poucas fotos o que durou aproximadamente 10 minutos, mas foi tempo suficiente pra que minhas mãos ficassem bem geladas. Felizmente dentro do navio é quentinho e em menos de 5 minutos tudo estava bem novamente.
A noite, como é tradição de domingo no navio, tivemos rodízio de pizza. É óbvio que eu me acabei comendo. Como não resta muito o que fazer por hoje, vou ler um pouco e dormir. Amanhã estaremos na Ilha Nelson, um pouco mais ao sul de onde estamos hoje, para reparo de um dos refúgios brasileiros na ilha e, quem sabe, nós desceremos para a coleta.
Um grande abraço a todos!
(Sabadão…) – Dia morto no navio. Sem condições de trabalho, de novo por aqui. Dia de sol, mas com ventos muito fortes. Pela manhã ainda conseguiram fazer 5 viagens, mas na quinta viagem os mergulhadores que conduzem os botes que levam as cargas para a estação tiveram que ficar por lá graças ao vento fortíssimo que soprou o restante do dia. A velocidade do vento variou de 60 a 110 km/h. Vento de furacão! É antártica não é moleza! O navio chegava a ficar inclinado de 10 a 20° graças ao vento. O divertido era observar o pessoal andando, ao estilo “Smooth Criminal”.
No almoço o pessoal ficou tirando sarro com a condição de trabalho por aqui. E saiu a perola do dia: “Só faltam umas 10 viagens de bote pra terminar a carga pra estação, no ritmo que nós estamos daqui uns 15 dias ta safo!” Todo mundo caiu na gargalhada. Se amanhã abrir um dia de com condições, eles matam o serviço com folga. Se não, vamos a estação chilena de Frei sem terminar as cargas por aqui, ficando para quando o navio retornar a estação daqui a um tempo.
No período da tarde terminei umas tabelas que a Fran pediu pra eu fazer e depois disso, só sobrou sessão de cinema na Praça d’Armas. A internet tem estado lentíssima e bastante intermitente nos últimos dias.
Ontem, como estava previsto, também chegou a Ilha Rei George o navio da Polônia, cuja estação é vizinha de Ferraz. É um navio bonito, com tamanho parecido com o Max, de casco azul. Foi a única coisa diferente que houve ontem por aqui.
No final do dia, por volta de 9 horas da noite, o vento deu uma trégua e os mergulhadores conseguiram voltar a bordo.
Como não temos o que fazer por aqui, me resta um bom banho, ler meu livro e ir para o berço.
Boa noite e um grande abraço a todos.